quinta-feira, 31 de julho de 2008

Não ganhei na mega-sena, de novo


O nível de felicidade de uma pessoa permanece basicamente o mesmo ao longo de toda a vida. Uma pessoa que é feliz por natureza tende a manter essa característica mesmo que passe por algum trauma que venha a lhe roubar a alegria temporariamente. Como um otimista que de repente se vê em uma cadeira de rodas. Depois de uma fase de tristeza, ele provavelmente será uma pessoa feliz em uma cadeira de rodas. Já uma pessoa que tem uma atitude negativa diante da vida vai ser infeliz pelo resto dela. Mesmo que algo de muito bom aconteça(como ganhar na loteria), depois de passada a euforia ela tende a voltar a ser a mesma mal-humorada e depressiva pessoa de sempre. Ainda que milionária.

Não sei ao certo quantas pesquisas abordam o assunto, mas já vem de longe o dia em que ouvi falar disso a primeira vez. Provavelmente foi naquele filme/desenho "Waking Life", do diretor Richard Linklater, em que os personagens de um sonho apenas conversam e conversam sobre idéias e filosofia. O parágrafo acima, inclusive, é basicamente a memória que tenho da cena em que o assunto era abordado. Uma conversa de cama entre o Ethan Hawke redesenhado e uma moça escondida pela metade, debaixo do lençol.

Já a última vez que vi o assunto ser trazido à tona lembro bem quando foi. Era um estudo divulgado em um jornal alemão de economia(!) - li numa matéria do Globon, não leio jornais alemães.. - que dizia que perder o emprego era mais traumático do que ficar viúvo. Para chegar à conclusão os pesquisadores se basearam em entrevistas nas quais mediam os níveis de felicidade das pessoas durante algum tempo. Dessa forma descobriram que quem fica desempregado demora mais para voltar ao nível de felicidade que tinha antes de perder o emprego, do que uma pessoa que passou pelo trauma de perder o cônjuge. A matéria lembrava que havia outros estudos que apontavam que a felicidade podia ser genética, um traço de personalidade. Ainda lembro bem que o nome dado pelos brilhantes cientistas ao "fenômeno" que explicava as pessoas voltarem a um nível de felicidade médio algum tempo depois de um trauma ou de uma grande alegria era "adaptação". Adequado, mas não precisava ser cientista para dar esse nome ao dito fenômeno.

Tanta enrolação pra confessar que a constatação me assustou. Quer dizer que mesmo que eu tivesse acertado aqueles seis números mágicos que acabariam com meus problemas, eu iria continuar a ser o mesmo infeliz, instável e às vezes depressivo que sempre fui? Não sei que nível de felicidade você se daria com sinceridade, caso fosse indagado por um desses cientistas, mas para alguém que não se considera a pessoa mais radiante do mundo é duro pensar que se está condenado a não encontrar a tal felicidade nunca. Gostaria de perguntar aos cientistas, "ficar rico não vai me fazer feliz então?". "Temporariamente", eles responderiam. "E encontrar a mulher da minha vida?". "Você se acostuma. Cansa, e vêm as outras mulheres da vida". "Ter um filho?". O cientista ri antes de responder. "Essa tá na matéria, né? Depois de uns dois anos o nível de felicidade volta ao normal. Isso se o tal moleque vier numa hora em que ele seja mesmo motivo de felicidade. Nem sempre é assim, bem se sabe. Poucos pais ou mães vão dizer que os filhos não os fazem felizes. Mas o tempo todo?". "Ok. A pergunta foi tola."

E aonde chegamos com essas pesquisas? À idéia de que a felicidade é química, genética, e que qualquer problema pode ser resolvido com uma ida ao psiquiatra e uma receita? Porque saber que se está condenado a ser um melancólico pelo resto da vida é um golpe duro. Acho que não é essa a resposta. E é claro que não existe uma apenas. Sempre desconfiei de pesquisas, mas tenho que confessar que essas fazem algum sentido se você parar para observar as pessoas por algum tempo. Quando escrevo sobre pesquisas evito dizer que elas provam qualquer coisa. Em geral digo que elas apontam ou indicam. É o que a maioria faz. E como não pretendo fazer aqui um texto de auto-ajuda, ou de ajuda-ao-próximo, apenas aponto uma conclusão. Não posso aceitar que estejamos condenados a ser os mesmos para sempre, sem nunca alcançar essa abstração que criamos de felicidade. Mas também não sou tão idiota a ponto de achar que realmente alguns milhões fariam a alegria eterna. Acho que realmente temos uma tendência a uma atitude positiva ou negativa diante da vida de uma maneira geral. Com seus altos e baixos influenciados por fatores externos, alterações hormonais e etceteras. Mas podemos mudar e ser mais felizes tendo consciência disso e procurando mudar as atitudes diantes da vida quando necessário. Mudar a maneira de encará-la. É duro escrever tudo isso para terminar em um clichê, mas descobri que existe um motivo para que alguns pensamentos sejam tão repetidos a ponto de se transformarem em um. Enfim... Queria ter ganhado na mega-sena...

24 comentários:

isabella saes disse...

Do alto dos meus 32, digo: não estamos condenados a ser os mesmos pro resto da vida. Enquanto estivermos vivos, estaremos em plena e constante mutação. E isso não é uma escolha, mas sim um fato. A escolha vc faz pela tão famosa e citada em seu belo texto "postura em relação à vida". Torço para que as escolhas sejam pelo otimismo, em sua maioria! Grande beijo e parabéns pela iniciativa do blog. Serei leitora, pode apostar!

Carlos Henrique - Petrópolis disse...

Tem um comercial do TRE passando na TV, que mostra um observador e sua luneta, aguardando a passagem de um cometa. Enquanto ele espera se vê enrolado tentando acender um lampião e não percebe a ocorrência do fenômeno. Logo após conseguir resolver o seu problema, ele volta a observar o céu aguardando o tão esperado acontecimento, sem saber que não verá cometa algum, talvez nunca mais.

Vivemos buscando algo que tem o seu momento para acontecer, algo que vem ao nosso encontro sem avisar e finalmente quando acontece, estamos distraídos com o cotidiano, embriagados com o horário disso, com o prazo daquilo, presos no engarrafamento da rua tal, entre outros acontecimentos.

Tão bom seria, se observássemos a vida em sua plenitude e não nos privássemos de viver os detalhes que deixamos passar. Observássemos que aquele amigo que a meses não víamos, está na mesma fila do banco e temos naquele momento a oportunidade de dizer um olá, trocar algumas palavras, sorrir pelo prazer de termos nos encontrado e nem percebermos que a fila andou e já é a nossa vez. Ouvir aquela música que nos faz lembrar de um momento especial, enquanto esperamos o transito fluir. Desejarmos um bom dia ao porteiro do prédio, mesmo estando atrasado para levar as crianças para a escola e perceber nele, um sorriso de satisfação. Enfim, descobrirmos que os momentos de felicidade estão presentes na maioria das coisas que fazemos no dia-a-dia e que a busca não é o caminho, pois devemos permitir que a felicidade nos encontre e esses momentos nos façam crescer como pessoas e mudar sempre para melhor.

isabella saes disse...

Carlos, seu comentário me fez pensar no documentário que estou produzindo e dirigindo com meu marido. É um filme sobre a Festa do Bode Rei, que rola em Cabaceiras, interior da Paraíba. Estivemos lá no ano passado e foi uma experiência incrível. O tempo pareceu ter parado naqueles dias que passamos lá. As pessoas que cruzaram nosso caminho só queriam levar um dedo de prosa e saber mais sobre nós. Nunca imaginei que me sentiria tão bem há tantos quilômetros de casa, numa terra muito diferente da nossa, apesar de ser Brasil. São momentos como esse que fazem a vida muito especial!! Beijos a todos.

Gardênia Vargas disse...

Boa estréia meu ser melancólico mais querido! Acho que um ser positivo é sempre melhor, mas não é assim o tempo todo, o negócio é lidar bem com essas contatações e viver o momento de felicidade itensamento. Infelizmente não foi dessa vez que ganhou na mega sena, mas veja, você teve esperanças até o ultimo suspiro. Então que tenha valido a pena sua tentativa, por que, à princípio, te deixou feliz.
Tente de novo :o)

Gabriel Cavalcanti da Fonseca disse...

Obrigado a todos pelos comentários. Gostaria de não ter demorado tanto para poder responder a cada um melhor. Mas fico muito feliz de ter recebido respostas tão bacanas e pertinentes enriquecendo essa página. Beijão pra vocês, Bella e Gardênia. E um abraço e seja bem vindo, Carlos. Aliás, sejam todos muito bem vindos. É muito bom poder ter essa troca.

Thiago disse...

A felicidade é quase sempre transitória. Oscila sempre. O sujeito feliz o tempo todo ou é idiota ou um cínico.

A felicidade é como uma fotografia diferente para cada pequeno momento da nossa vida.

São duas coisas que definem a fotografia. O nosso espírito e as circunstâncias. Eles dialogam o tempo todo para formar cada retrato.

O nosso espírito determina a luz que é projetada, enquanto as circunstancias são o objeto que vai receber essa luz.

Todos os dois estão, em alguma medida, sob nosso controle.

Claro que há quem, de nascença, tenha mais talento com a luz. A coloque sempre do melhor ângulo, ressalte os objetos que devem ser ressaltados, omita os defeitos...

E existem também pessoas com imensa capacidadede transformação. Essas trabalham para manter os objetos sempre em ordem. Conquistam aquela pessoa desejada, ganham $, superam doenças, que ajudam os amigos etc.

Acredito que todos podemos "treinar" a luz e trabalhar para colocar os objetos no lugar certo. Ou ao menos compensar uma deficiência em um com mais talento ou esforço no outro.

Gabriel Cavalcanti da Fonseca disse...

Muito bom, Thiago. Gostei muito da analogia. Especialmente porque entre outras coisas sou fotógrafo.
Abraço

Daniel Cavalcanti disse...

A idéia central foi muito bem desenvolvida! O texto é irreverente, bem escrito e, acima de tudo, transcende sinceridade.
Mas essa tese de que dinheiro não traz felicidade está, pelo menos, parcialmente incorreta. Os seus defensores baseiam-se principalmente nos casos de personalidade famosas que se suicidaram e blá, blá blá....
Sim, sim, mas fica a pergunta:
Alguém já ouviu falar num retardado-rico-suicida?
Para exemplificar lançarei mão de um exemplo clássico – a insegurança. Se uma pessoa é infeliz por não conseguir pegar ninguém, o bilhete premiado da mega-sena poderá resolver facilmente este probleminha. Compre um carrão e uma giga-casa com piscina e em poucos meses haverá dezenas de amigos e mulheres de biquíni no seu quintal.
Mas, se você for um pouco “sensível”, perceberá que tudo isso é um mundo de interesses (claro!).
Neste caso, a inteligência atrapalha a realização pessoal.
Conclusão: Se você não for uma pessoa medíocre, não jogue na mega-sena. O seu problema é outro e o dinheiro realmente não te fará mais feliz. Mas tente da próxima vez chegar naquela gata que você hesitou 27 vezes na noite passada.
PS.: Ao contrário do autor, terminei com frase de auto-ajuda. rsrsrs

Rafael disse...

Pô, fez um blog e não avisou?
Ok, vou acompanhando daqui.
Abs, camarada.

Gabriel Cavalcanti da Fonseca disse...

Boa surpresa você aparecer antes de eu divulgar. Grande abraço, meu camarada!

E outro abração pra você, meu primo Daniel! Viu como é só soltar o dedo? hehehe. Valeu pela contribuição!

Pascarella disse...

Grande texto, meu amigo. Vejo que você agora também é um colunista virtual periódico.

A felicidade parece mesmo privilégio de poucos. É porque ela na verdade está nas coisas bem pequenas como:
- Chegar em casa apertado pra ir ao banheiro e o elevador estar ali paradinho, te esperando.
- Achar uma nota de 50 Reais no bolso.
- Ligar o rádio às 20:01 e descobrir que, sem querer, você escapou da Voz do Brasil.

Um grande abraço Gabriel.

Gabriel Cavalcanti da Fonseca disse...

Ou ligar o rádio às sete da manhã e descobrir que você vai ter o privilégio de escutar o Redação Paradiso inteirinho. Hehehe

Grande abraço, Pasca.

Nelson disse...

Joguei nessa mesma mega-sena e, acredite, também não ganhei! Como você sabe, eu tenho um forte viés de querer ganhar todo e qualquer jogo do qual participo. Assim sendo, minha frustração foi imensa e compreensível. ;-)

No entanto, esse estado de relativa "infelicidade" passou rápido. Mais precisamente, após dois chopps, naquela mesma noite...

Agora, uma verdade deve ser dita: Como já sou otimista e tranquilo por natureza, uma vitória nesse jogo teria trazido um estado de felicidade bem duradouro, garanto...

[s]!

Gabriel Cavalcanti da Fonseca disse...

Hehehe. É, meu caro. Digam as pesquisas o que quiserem, olha esse post do kibeloco que qualquer um vai questionar todas elas.
http://www.kibeloco.globolog.com.br/index.html?postId=642504

Hahaha. É isso..
Grande abraço

Luciana Figueiredo disse...

Vc fez o blog! Adorei! Vc é mais corajoso que eu... Mas, caramba, a gente foi almoçar e vc nem disse que tava pronto :( Mas valeu a surpresa. Depois de tantos anos de convivência, foi ótimo "descobrir" esse amigo que eu não sabia que tinha. A minha percepção de vc nunca tinha encontrado a sua percepção sobre vc mesmo (espero que vc tenha entendido isso!).

Sobre felicidade, definitivamente as pequenas coisas. E é verbo ser, no presente - bem longe do futuro.

Vou ler vc sempre!

Bjs grandes

Gabriel Cavalcanti da Fonseca disse...

Obrigado pelo comentário, Lu. Elogio seu vale dobrado. Afinal, é o elogio de uma profissional. :)
Acho que ainda não tinha colocado ele no ar quando almoçamos..

Sem muitos alongamentos na resposta. Sobre felicidade, definitivamente.

Beijos

Violeta disse...
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Violeta disse...

O texto é tão direitinho que eu acho até esquisito, mas carrega alguma coisa que diz Esse Cara Ainda Vai Me Impressionar.
Eu, de blog novo e com pouca coisa, venho dizer que gostei - e que (curioso, não?) meu primeiro post é sobre quase a mesma coisa, mas na forma do conto que conta sobre a menina que muda sim, e que descobre que a felicidade está mais perto do que se imagina, e do modo menos cliché possivel(pelo menos eu tento).

E digo mais. Só é feliz quem já foi triste, só se acalma quem estava desesperado, só se vive plenamente quando se sabe o que é simplismente existir e se repudia isso. Boa sorte.

Violeta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gabriel Cavalcanti da Fonseca disse...

Obrigado pelo comentário e pela instigante "provocação". E muchas gracias pelo voto de boa sorte. Ingrediente fundamental até para esse tema aparentemente simples que têm tantas visões diferentes, felicidade.

Um beijo

Renata disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Renata disse...

Falando em pesquisas que "apontam" direções, outro dia vi uma que dizia que a sensação que traz mais euforia ao ser humano é a paixão (ok. Nada de novo).

Novo é o que vem depois: fizeram uma experiência com uma mulher apaixonada, na qual mostraram à ela fotos enquanto faziam uma espécie de tomografia em seu cérebro. No momento em que mostravam as fotos dos amigos, da família e do cachorro, determinado lado do cérebro ativava (acho que era o direito). Quando chegou a vez da foto do namorado, a parte do cérebro ativada mudou: foi a mesma que se ativa quando se usa êxtase ou cocaína.
Conclusão: o que nos provoca mais prazer é uma droga!

Gabriel Cavalcanti da Fonseca disse...

Hummm.. Será que estou sentindo uma pontinha de limão, Renatinha?

Beijos

Renata disse...

Não chuchu, está tudo certo. Foi só um adendo...
Saudades!!!